No último ano, a promessa de personalização e eficiência levou muitos entusiastas do exercício a experimentar treinadores de Inteligência Artificial. No entanto, para a autora Victoria Song, a jornada com a liberdade fitness AI tomou um rumo inesperado, culminando na decisão de abandonar completamente esses planos. Ela descobriu que, por vezes, a melhor estratégia é simplesmente ignorar o que a tecnologia sugere.
Victoria Song, revisora sênior da The Verge e autora da newsletter Optimizer, compartilha sua experiência pessoal. Após um ano de ótimos resultados, ela enfrentou lesões, doenças e estresse, perdendo o ritmo e 10 quilos. Em busca de recuperação, ela testou por um mês três renomados coaches de fitness com IA: o Fitbit AI Health Coach, o Peloton IQ e o Runna. O objetivo era melhorar seu tempo em uma corrida de 5K, que havia piorado de 31 para 38-40 minutos.
A surpresa veio no final: ela melhorou seu tempo em cinco minutos. Mas isso aconteceu depois que ela decidiu dispensar todos os seus treinadores de IA.
A promessa da personalização no fitness com IA
A ideia por trás dos coaches de IA é sedutora: desmistificar o treinamento e adaptá-lo às suas necessidades individuais. Você informa seus objetivos – como perder peso, melhorar a forma física ou atingir um tempo específico em uma corrida. Com plataformas como o Fitbit AI, é possível detalhar informações como “estou começando novos medicamentos” ou “tenho propensão a dores na canela e acesso a uma bicicleta Peloton”. Em teoria, isso deveria levar a recomendações altamente personalizadas.
Por exemplo, o Fitbit AI sugeriu que, após duas semanas de doença, ela deveria fazer passeios de bicicleta leves, caminhadas e corridas de Zona 2. Um programa de três treinos por semana parecia razoável. No entanto, a realidade se mostrou diferente, levantando dúvidas sobre a verdadeira eficácia da liberdade fitness AI.

Desafios da motivação e responsabilidade com IA
Um dos maiores problemas, segundo Song, é a falta de responsabilidade que a IA pode oferecer. É fácil “enganar” a IA para obter descanso prolongado. Se você precisa de disciplina, é preciso pedir à IA, e mesmo assim, pode desativar as configurações se ela se tornar incômoda. Dizer que está cansado pode resultar em um “tudo bem, seja gentil consigo e descanse”, em vez do empurrão necessário para começar.
Para a autora, que se considera disciplinada, foi simples manipular o Fitbit AI para se esquivar dos treinos. Com o Runna, reiniciar um programa era muito fácil. As sugestões de levantamento de peso do Peloton IQ podiam ser ignoradas sem consequências, além da própria consciência. A ideia de justificar a si mesma para um coach de IA muitas vezes parecia mais trabalhosa do que simplesmente evitar o treino.
A superficialidade dos conselhos do seu coach digital
Outro ponto levantado é a obviedade dos conselhos da IA. Para iniciantes, qualquer informação é útil. Mas para quem já treina há um tempo, a IA frequentemente apenas reempacota conhecimentos existentes. As análises de ritmo do Runna, por exemplo, apontaram que a autora era inconsistente, começando muito rápido e terminando cansada. Algo que ela já sabia há uma década. O Fitbit AI recomendava oito horas de sono e rotinas de dormir, o que era conhecimento de infância. O Peloton IQ ocasionalmente ajudava com a forma do levantamento de peso, mas pouco mais.
Além disso, a IA frequentemente exige “mãozinha”. O Fitbit sugeriu corridas em esteira devido ao tempo frio, apesar de a autora não ter esteira e odiá-las. Sua preferência por correr ao ar livre ou pedalar em ambientes fechados em temperaturas abaixo de 30 graus Fahrenheit foi ignorada. A IA apenas agendou outra corrida em esteira. Essa falta de adaptabilidade em tempo real questiona a eficácia da liberdade fitness AI.

A importância da intuição humana no treino
Após duas semanas de alternar entre “intimidar” a IA e seguir suas recomendações, Victoria Song participou de sua corrida de 5K anual. Suas pernas estavam pesadas, a música não ajudava, e ela estava preocupada com seu desempenho. Ela se sentia constantemente interrompida por uma voz de IA que dizia se estava atrasada ou adiantada. Com três pausas para caminhada e uma cãibra, ela terminou em 41 minutos.
A análise pós-corrida da IA foi previsível: “Métricas não indicam falta de descanso. Você comeu antes? O ritmo foi inconsistente. Durma de sete a oito horas. Quer considerar os efeitos colaterais da medicação?” Foi então que ela percebeu que estava delegando à IA algo que deveria ser guiado por sua intuição. Ela estava exausta com a quantidade de dados e o esforço de “treinar” a IA.
Ela excluiu o plano do Runna, parou de usar o Fitbit para testes e ignorou as funcionalidades de IA do Peloton. Reajustou sua mentalidade para simplesmente aproveitar a energia do dia da corrida. No dia da prova, ela mal olhou para o relógio. Terminou em 36 minutos, cinco minutos mais rápido que sua corrida anterior e com um ritmo médio melhor do que todos os treinos com IA. Não foi uma corrida perfeita, mas foi uma boa corrida.
O aprimoramento da saúde é, em grande parte, uma batalha mental. A IA, por não possuir a capacidade de realmente entender e se investir nessa jornada, falha em ser um parceiro de responsabilidade eficaz. No fim das contas, a liberdade fitness AI reside em você saber o que é melhor para si mesmo. Às vezes, isso significa simplesmente dizer para a IA calar a boca.
Fonte: The Verge

